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quinta-feira, 8 de julho de 2010

Bolas, cifras e vidas

O que me dá medo é a desorientação do ser humano. Essa mania de agir por instinto. Essa coisa animal que o bom senso esconde, que a educação acomoda, que a criação deturpa... mas que o medo, a ansiedade ou qualquer outro sentimento que desperte o desespero deflagra.
O caso do desaparecimento de Elisa Samudi e o possível assassinato sob os auspícios do goleiro Bruno - o que na verdade são duas faces de uma mesma coisa - parecem denunciar exatamente esse conflito existente entre o certo e o errado, entre o comum e o chocante.
A existência de um relacionamento extraconjugal e/ou a possibilidade de uma - gorda - pensão mensal seriam motivos para um crime ou uma estória confusa como essa?
A meu ver estamos cada vez mais próximos de uma independência científica, em que podemos tudo, em que somos capazes de direcionar as escolhas de nossa vida, mas, por outro lado, não conseguimos tranquilizar essa ira animal que nos acomete. A cobiça, o ciúme, a inveja, são motes para nos tornarmos brutais e cometermos os maiores absurdos. A família - não a tradicional, com todos felizes habitando a mesma casa, mas a possível, em que todos convivem e há um amor, mesmo que só companheiro - está cada vez mais distante. A convivência se mostra, cada vez mais, como um impecilho.
Nossos desejos e nossas vontades parecem nos guiar cada vez mais para o lugar de onde viemos: o nosso ambiente mais selvagem.
Mustafá!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Último presente de 2009

AMIGO POETA

Poeta sem dono,
um eterno abandono
varrendo os dias
na manhã de ontem.
Plantando alegrias
no seu horizonte.
Poeta sem destino certo,
coração de menino esperto
e sonhador, acredita na vida
e busca no amor
a sua canção preferida.
Poeta, poeta,
nessas horas incertas és inspiração
ou apenas um vaga lume
qua apaga e acende a tua luz
nessa imensa escuridão.
Poeta, deita as tuas palavras
quietas no papel da minha emoção
e descreve o mundo com
a tua sensibilidade.
As vezes a tristeza é tanta,
que só quem canta o amor
que tu distribui é capaz de sorrir.
Poeta, amigo poeta,
muito obrigado por você existir . . .

(Raquel Mendes)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

No céu...

Há 20 anos a conheci. Ela tinha os mesmos cachos cinzas no cabelo, a mesma voz mansa, a mesma boa conversa, o mesmo sorriso e a mesma mania simpática que combinava a simplicidade e a alegria. Eu era um menino de oito anos e meus pais a convidaram para jantar em casa. Eu curiosamente quieto, escutava-a ir de um assunto a outro e, quando olhava pra mim, sorria, mesmo que não o fizesse.
Eu gostava de suas estórias e de seu jeito amável de contar a vida. O jantar foi interrompido por uma forte chuva e a luz que se apagou. No agito que se fêz em meu peito e o medo do escuro ouvi sua pergunta: "você gosta de comprar o quê com o dinheiro que você ganha?". Eu, já esquecido do susto, disse envergonhado que a mim importavam umas balas e leite condensado... Ela emendou: "E guaraná, não?". Eu disse que sim com o movimento da cabeça.
Minha mãe colocou uma vela no centro da mesa e nosso jantar ficou mal iluminado, mas ainda cheio de suas estórias. Eu estava feliz por dentro e por fora e não sabia porque. Eu dormi antes dela partir, mas acordei no dia seguinte com um bilhete e alguns trocados. No texto ela dizia que tinha ficado feliz em me conhecer e que com o dinheiro eu poderia comprar "umas balas, uma lata de leite condensado e um 'caçulinha'". Ela já tinha ido embora. Eu fiquei emocionado e triste. Não queria que ela tivesse nos deixado assim tão rápido.
Eu fui crescendo e, todos os anos, ela aparecia na casa da minha avó para nos visitar. Enchia sempre tudo com suas estórias e seu jeito simples de fazer todo mundo descontraído. Eu pensei em comentar com ela esse meu sentimento, como ela tinha se tornado minha amiga na infância e como era importante para mim. Não disse. Deixei que o sorriso e meu olhar e ouvido atentos dissessem e fizessem-na perceber o quanto sua presença era bem vinda.
Ontem recebi a notícia de seu falecimento. Só então me dei conta de que não percebi que ela envelhecia, como eu, ao longo dos anos. Era a minha eterna amiga de infância a contar estórias, sempre com os cabelos cinzas. Não me deixou nenhum bilhete, mas a mesma sensação me veio à lembrança: fiquei emocionado e triste. Não queria que ela tivesse nos deixado assim tão rápido.
Foi meu paladar que se rendeu à saudade e pude sentir, mais uma vez, o gosto do guaraná caçulinha. Fiquei feliz por saber que pude conviver com alguém tão especial que seguiu seu caminho... Foi fazer jus ao nome: Celeste!
Mustafá!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O verbo vida

Há entre nós um hiato.
E dessa separação um não encontro, um não adeus.
Adeus. Deus. Sempre Ele decidindo as coisas.

Do que ficou, o sorriso.
Da dor que resta, uma lágrima.
Das brincadeiras frágeis, a saudade.

O beija-flor pairou no ar e voou.
Riscou o destino tão rápido que nem fez caminho de partida.
No jardim ficaram os lírios e um azul do céu que nos distingue.

Do sabor estranho ficou a certeza:
De que vida é agora e não mais.
O amanhã se conjuga no presente.

Mustafá!

terça-feira, 24 de março de 2009

Desculpas

Fabíola e Gustavo mudaram-se, temporariamente, aqui pra casa. Ai já viu, todo momento livre está sendo dedicado a muitas risadas e estórias impublicáveis.
Além disso, estou trabalhando feito cão.
Quando der tempo retorno a postagens mais frequentes...
Mustafá!

domingo, 11 de maio de 2008

Magia da cor dos olhos

Eu conheço a cor dos seus olhos... E fico tão feliz por ela ter se refletido nos meus. Essa é a magia da maternidade: recriar o velho com o mesmo amor do novo. Eu conheço todas as suas manias, os seus trejeitos, o seu jeito sempre prestativo, sua maneira sempre engraçada de dizer as coisas sérias. Eu conheço sua companhia desde sempre, quando éramos só eu e você nas tardes longas de Virgínia. Você e seu crochê. Eu e o meu brinquedo. Foi ali que se desenhou nossa intimidade. Conheço as nossas brigas e seu rápido perdão e sua maneira de lidar com o meu gênio difícil. São as cores dos seus olhos que me olham, me acalmam e me mostram maneiras menos duras de dizer para as pessoas o quanto eu as amo.
Em mim não há nada o que você não saiba. Mesmo aquilo que nunca falamos você conhece. Conhece todas as arestas da minha vida e sabe como apará-las. Conhece os meus sonos mal dormidos e muitas vezes se enrola nos seus por minha causa. Conhce minha maneira de expor na péle a minha preocupação e me salva com seus curativos de química e de amor. Conhece todas as minhas necessidades e vai, aos poucos, construindo todas elas para eu saber que sou feliz. E ri, quando também é fácil o meu sorriso. E chora, escondido - eu sei! - para que eu não perca as esperanças.
Eu conheço a cor dos seus olhos. É a cor do íntimo.
Mustafá!
Para minha mãe, mais uma vez e sempre!

terça-feira, 2 de maio de 2006

Malas de vó


Sempre digo que trago malas diferentes das que a gente conhece das viagens que faço. Malas que existem somente na minha imaginação. Já trouxe saudade, vontade de ficar, vontade de nunca mais voltar... Dessa vez trouxe uma caixa contendo coisas de avós.

Nessa caixa depositei biscoitos da Vó Lola e mãos quentes da Vó Anita. Carinhos para o corpo e para a alma. Não trouxe nada, além disso, dessa última estadia em Virgínia. Sei que isso é suficiente para encher muita coisa.

Biscoito da Vó Lola me lembra sempre as brigas com o Vó Zezé que não queria que a gente comesse tudo de uma só vez. Não entendia muito bem porque tinha que sobrar se nos sobrava fome... Biscoitos da Vó Lola me lembram brincadeiras que se estendiam na pracinha do hospital até altas horas e o corpo coçando de grama na hora do banho.

Mãos da Vó Anita lembram-me sempre mãos rijas que endureceram ao longo dos difíceis anos de doença do Vó Niquinho e um monte de problema para resolver... Mãos que sabem resolver problemas difíceis, mas que tecem lindos desenhos de linha fina... Mãos que cruzam meus cabelos e me lembram que já fui criança ali mesmo naquele sofá e que eu e as mãos temos envelhecido juntos.

Coloquei bem guardadas nessa caixa essas duas coisas. Não posso dividi-las com ninguém. Mesmo com quem já as têm. É diferente. Sabores adequam-se aos paladares de cada um.

Malas vieram praticamente vazias dessa última viagem. Mas vieram tranqüilas, como comer biscoitos e ser afagado por mãos carinhosas...
Mustafá!