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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Daquilo que só acontece comigo

Eu podia estar matando, eu podia estar me esguelando, eu podia estar morrendo... Mas estou aqui para repassar a minha estória.
Ontem eu fui pagar o condomínio e, na casa da minha vizinha, eu percebi que tinha perdido o documento do carro. Não preciso nem dizer que eu não me lembro de nada que ela falou comigo, nem me lembro de como subi as escadas até o meu apartamento. Só me lembro que procurei uma centena de vezes essa merda desse documento na minha bolsa, umas 30 vezes no carro (até lanterna eu usei para tentar localizar), que liguei para todos os locais possíveis e imagináveis por onde passei para saber se eles tinham encontrado um documento e que fui para Internet para - em vão - localizar as decisões e passos que eu deveria tomar para retirar uma segunda via. Fiquei tão nervoso que a pesquisa na Internet nada rendeu, minha noite de sono se escafedeu e acordei todo pilhado, achando que o mundo tinha acabado por conta de um papelzinho verde que só se tornou importante ontem.
Vim de ônibus para o trabalho e já tinha me esquecido dessa agrura da vida. Ser pobre é muito ruim quando se está apertado dentro de um transporte coletivo. Quando cheguei no trabalho, contei para uma cálega novata do silviço e ela - mostrando que não me conhece mesmo - me falou que é muito comum as pessoas usarem o número do chassi pra isso, o número do RENAVAM pra aquilo... Dali pra eu me cobrir, deitar naquele chão, chorar e me fingir de morto por toda a eternidade não custava nada... Ela não sabe que sou a pessoa mais sofredora, desesperada e escandalosa do mundo?!
Fui pra Internet e consegui fazer uma pesquisa. Dali fui para um posto da polícia civil e fiz um boletim de ocorrência. Detalhe: a impressora do distrito não funcionava. A dona anotou num bilhetinho o número do BO e eu corri - de táxi - para outro distrito vizinho... Lá imprimi a budega e metade do caminho tinha sido percorrido. Fui para o Detran e não é que lá tudo se resolveu rapidamente. Outra dona do cabelo oleoso me passou o meu número do RENAVAM e eu pude imprimir a boleta que, quando paga, desencadeia o processo de emissão de segunda via. Disse a dona do cabelo oleoso que se eu for no outro Detran na segunda já saio com o meu documento na hora. Paguei a boleta e agora tenho que esperar segunda chegar para eu ter o meu carrinho de volta.
Tô acreditando não, mas cansei de fazer tempestade em copo d'água...
Mustafá!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Os barracos da cidade

De todas as opiniões que ouvi sobre as chuvas e suas consequências no Rio a melhor foi a de um professor da UFRJ. Ele dizia que não adianta as autoridades irem à TV e dizer que isso e que aquilo. Na verdade, o que existe são iniciativas muito discretas antes desses acontecimentos, ações calorosas, sentimentais e, por que não, apelativas durante e decisões cínicas a longo prazo.
De fato as grandes cidades têm como prever que esse tipo de situação vai ocorrer, mesmo sendo tímidos os nossos meios para as previsões do tempo. Há uma displicência muito grande com relação as verbas destinadas às comunidades que formam nas encostas, nos morros e nas demais regiões onde as às águas descem ou sobem destruindo as vidas. Os projetos são desenvolvidos sem a responsabilidade que carecem. Quando são colocados em prática, nem todos os locais são beneficiados igualmente.
No calor das emoções a população toda se comove e passa a fazer o trabalho que deveria já ter sido feito, calculado, planejado e arranjado. Se não tem bombeiro suficiente, qual o problema? Os desabrigados, mas sobreviventes, podem passar a noite inteira cavando com as mãos a procura dos corpos. As doações começam a chegar de todo o ponto do país, mesmo que, de todo o ponto do país, já tenham sido cobrados todos os impostos. Às autoridades cabe a tarefa de irem a frente das câmeras e, emocionados, garantirem que todos os corpos serão sepultados em valas decentes.
Depois, quando a chuva cessa e a lama seca, os poucos projetos passam a ser desenvolvidos, as grandes ideias engavetas, a lista dos desabrigados vai diminuindo a medida que as pessoas arranjam outros morros para se amontoarem e as autoridades podem, de novo, retornar à frente das câmeras, para prometer saneamento, pavimentação e condições dignas de moradia.
Os cidadãos? Preparam seus lenços para chorarem ano que vem e seus bolsos para contribuírem com alimentos não perecíveis.
Mustafá!

quarta-feira, 10 de março de 2010

Respirando...

Vim aqui só pra dizer que não consigo fazer muitas coisas ao mesmo tempo, mesmo que eu o faça algumas vezes. Tô com a turma de especialização pra fechar, uma viagem inusitada que inventei para organizar, alguns trabalhos adicionais e mais a ALMG, do meu sustento. Cansa ser assim, sabe?, intenso...
Cansam também algumas pessoas, essas que vestem calças xadrez e all star imundo e já se acham cults. #desabafo...
Ressalto minha felicidade diante da vida... Nunca fui tão introvertido e, ao mesmo tempo, tão feliz comigo mesmo. Poucas pessoas têm estado em meu convívio, mas já basta... Tô prezando pelo silêncio, pelos episódios de Os Normais no DVD, pelo meu BBB ao cair da noite, pelas minhas revistas de arquitetura, pelo meu sono nas horas mais inimagináveis, pelo bolo da espera, pelos emails com os amigos de sempre, nada mais...
Tava todo bolado com o terremoto no Chile, achando que era o fim do mundo, mas ai vi no Fantástico que não tem relação com o aquecimento global, ai fiquei mais aliviado...
Não assisti à nada do Oscar. Who cares?
Sismei essa noite que estava com dor de garganta, mas já passou também...
Viva a vida!
Mustafá!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Sobre filmes, livros e terremotos que nos sacodem a vida


Só ontem assisti à adaptação do Ensaio sobre a cegueira. Já tinha lido o livro de Saramago e acho que a estória escrita me deixou mais perplexo e me fez refletir mais que o que foi para as telas. Engraçado pensar que só somos o que somos porque temos quem nos enxerga, quem nos avalia, quem nos julga. Assim, inertes nesse emaranhado de regras, princípios éticos, moral e bons costumes, enxergamos sempre no outro o certo e o errado, sem saber que o certo e o errado, se é que existem, escondem-se na escuridão da cegueira, dentro de gente mesmo... E é quando estamos sozinhos em nossa escuridão é que somos quem realmente somos...

Estou lendo o livro Caim, recém lançado por Saramago. No livro o autor reconta, à sua maneira atéia, a estória do rapaz que matou seu próprio irmão, seguindo a vontade de Deus. Atrelado às inúmeras críticas que o autor faz ao antigo testamento - até bem óbvias, diga-se de passagem - há a sua maneira ímpar de escrever e questionar sobre a existência de um deus e, principalmente, da existência de Deus tão mau a ponto de pedir a um pai que sacrifique seu filho.

Paralelo a isso, tenho evitado à assistir aos noticiários sobre o terremoto no Haiti. Não somos obrigados a ouvir aqueles gritos de terror e ver aquelas cenas do absurdo. Os olhares desolados, principalmente das crianças, ficam muito tempo em minha mente. A minha incapacidade de ser Zilda Arns e ir ao encontro dessas pessoas, faz com que eu fique, como os personagens de Saramago, cego diante de toda essa necessidade. Como o próprio Saramago, eu me questiono sobre a existência de um Coordenador do Mundo - que tudo pode, tudo vê e tudo sente - que permita tal acontecimento natural.

Que provações terão que passar os pobres haitianos para conseguir um lugar iluminado nos céus?

Mustafá!


(Na foto, a capa que mais me impressionou, seja pela força da imagem ou pela qualidade do trabalho de editoração).

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Má fé

O Grande Pastor prometeu às ovelhinhas que, se elas deixassem ser tosadas e lhe entregassem toda a lã, elas receberiam, como recompensa, lãs novas, muito melhores e em maiores quantidades das que tinham. Elas entregaram... Ficaram peladas no sereno, no frio, no sol, na tempestade, na garoa... O Grande Pastor nunca mais voltou. Abriu uma fábrica de lãs e foi rebanhar outras ovelhas. Ficou rico. Seu cajado agora é de ouro.
O pior de toda a estória do Edir Macedo não é a maneira engraçada com que ele lida com a fé das pessoas humildes. O engraçado da estória do Edir Macedo é como ele lida com o pior do que há nesses seres humanos: a ganância. Quem oferta para receber em dobro; quem entrega o ouro para a construção do templo para, em troca, receber um bom lugar no céu; quem compra uma chave do céu porque quer conforto ou tem medo do que o espera é ganancioso. Tudo isso é prova de que a ganância pode cegar. A fé, mais uma vez é mal interpretada.
Nesse pasto, nas terras desse pastor, nunca se ouviu falar de fé. As ovelhas acreditaram não pelo exercício da crença, do processo de se entregar ao que se acredita. Acreditaram porque eram tão capciosas quanto seu Pastor.
Mustafá!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Da cor, do amor...


Ouvi, do outro lado do passeio uma mãe dialogando com seu filho. Ambos negros... Ela gritava: "Você é macaco? É?!!!" e ele, meio que duvidando, respondia: "Não..." E ela insistia cada vez mais alto: "Então, você é macaco?! Então porque você se vira quando eles te gritam?!". E gritava de novo e de novo, não para que nós ouvissemos. Ao contrário: ela gritava porque parecia mais fácil, assim, para ela entender.

Continuei caminhando como se aquilo não me afetasse. Fiquei imaginando quanto esforço aquela mãe fazia para não voltar e não esfregar a boca dos colegas do filho nas palavras que diziam. Quantas vezes ela não teria ouvido tais insultos e ficado, como o filho, calada. Quantas vezes mais, mães e filhos negros deveriam responder aos insultos, calarem-se diante deles, revidarem, darem de ombros, chorarem, processarem essas infâmias... Eu caminhei calado.

Acho que me emocionei ao imaginar o que se passava na cabeça do menino: ele sem entender bem o porquê de o chamarem de macaco, sem entender o porquê da diferença, sem entender que seus colegas, de estrela na testa, é que não tinham cumprido a evolução da espécie.

Acho que deixei escapar uma lágrima, por todo o silêncio que existe no preconceito. Como se o nó que se formava na garganta da mãe fosse divido comigo. Me emocionei pelo fato da mãe saltar sua baixa auto-estima, e gritar para o filho direitos do amor.

A rua é de todos. Os passos são diferentes...

Mustafá!