quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Todo santo ajuda?


A vida está mesmo difícil para mim, eu sei. Basta analisar o número de horas dormidas (menos de 7 por dia), o numero de textos lidos (poucos) e os que ainda precisam ser degustados (muitos e põe muito nisso!), o número de filmes que tenho assistido (zero), enfim, se eu reclamar de tudo o FdG vai virar um muro de lamentações.

Mas acho que virei um caso que só se resolverá com milagres... Pelo menos é o que pensa minha amiga-professora-coorientadora-salva-vidas Marta. Ela me passou um texto ontem que eu precisava ler para uma aula de hoje. Detalhe acabei de lê-lo a uma da matina... E o pior: o que encontro no meio das páginas do texto? Uma novena para Nossa Senhora, isso mesmo. Na dúvida perguntei para ela o que ela queria dizer com isso... Ela riu...

Será que sou um caso do tipo “só Jesus salva?”

Já que é assim vou fazer a novena e passado os nove dias quero que: meu tempo se multiplique em, no mínimo, três; meu dinheiro dure o mês todo; que meu cérebro não se funda até o final do mestrado e que minha loucura seja perdoada sempre...

É, acho que é só! E se não for só isso, quero férias em Salvador e carnavais fora de época umas duas vezes ao mês....

Agora é só mesmo...
Mustafá!

terça-feira, 30 de agosto de 2005

Bolha de sabão


Era uma vez um menino que morava numa bolha de sabão. Outros moravam com ele também e, sendo essa bolha pequena, era natural que se soubesse das coisas boas e ruins que dentro dela aconteciam. Mas a bolha, como todas as bolhas de sabão, impunha limite. O limite é tênue, é verdade, mas o menino estava separado do que havia fora dela. Como se, pela transparência da bolha, ele observasse o que havia fora dela, mas dentro dela fosse a única opção de ambiente de vida.

Então ele vivia como viviam todos dentro da bolha de sabão, com a eminência da explosão, mas não se preocupando com ela.

Mas a bolha de sabão explodiu. Não a bolha que ele habitava, mas a bolha que nele habitava. Foi o menino procurar outras bolhas, outras águas e sabão. Descobriu que, por mais bonita que seja a bolha pairando pelo ar, esperando a morte rápida e instantânea, é preciso conhecer e reconhecer que o mundo não é o limite que lhe finge mostrar o que há fora, enquanto ela não é espelhada, portanto, não mostrando a realidade que dentro se impõe.O menino volta à bolha com certa freqüência e a admiração hora sentida por ela se transforma, pouco a pouco, como o encontro do sopro, da água e do sabão, em consciência crítica. Bolhas explodem com certa freqüência: quem está dentro delas precisa se preparar para viver fora dela, ou pelo menos acreditar na existência de outras bolhas...
Mustafá!

segunda-feira, 29 de agosto de 2005

Fantástico...


Não sei com que olhos eu vi o programa do Fantástico ontem...
Sim, eu vejo o Fantástico, confesso. Sei que é um "samba do crioulo doido" que mistura alhos com bugalhos, mas meus domingos não são os mesmos sem assiti-lo. Melhor do que assistir Faustão, não é? Gosto de rir daquela voz de múmia do Cid, adoro a Eva Bite, etc. etc. e etc.
Mas ontem eu me assustei. Acho que o programa chegou ao limite quando veiculou a "pseudo reportagem" sobre as calcinhas das mulheres que dançam ciranda no norte do país! As calcinhas aparecem quando elas rodopiam... Enfim, o que eu ganho com isso a não ser que cheguei a conclusão que se eu me abalar daqui até o norte perderei de ver as calcinhas das "cirandeiras" porque a sociedade/igreja de lá proibiu que elas se exibam?
Existem coisas que estão escondidas debaixo de muita calcinha - e não é isso o que você está pensando - que é muito mais imoral do que isso que você está pensando. Aliás não seria de se impressionar que calcinhas também aparecessem cheia de dinheiro, como aconteceu com uma cueca de tamanho G, aliás, PT...
A sociedade tem que saber que o problema não é mais aquilo que está escondido, que é feito por baixo dos panos... A sociedade precisa combater o mal latente, que está debaixo dos nossos narizes...
Ah! E a televisão precisa fazer um controle da qualidade daquilo que transmite!
Mustafá!
Leia a "reportagem"...

sábado, 27 de agosto de 2005

.: MOMENTOS COM PESSOA - O FIM:.


Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa, Poesias Coligidas -1931.

Eu não queria... Eu não devia... Mas como já disse durante essa semana, meu tempo está curto. O "Momentos com Pessoa" se encerra hoje, mas isso não significa que Fernando Pessoa deixará de nos acompanhar, aliás, prefiro falar por mim. Ele não me deixará. Sempre que puder voltarei a relê-lo seja aqui ou em seus livros: esse poeta de várias faces. Deixo de publicar nos finais de semana, para cuidar da vida... Mas sempre que der passo aqui nos findis, pois esse é o lugar, fora de mim, que me dá mais prazer...

Bom findi e mustafá sempre!

sexta-feira, 26 de agosto de 2005

Que cubram as vergonhas!


Eu nem devia ter olhado, porque a notícia já era velha... Mas eu vi. Quando me dei conta já estava lendo a reportagem de uma chacina em que várias pessoas estavam nuas, mortas... Brutalmente assassinadas. Era estranho sentir compaixão, dor e um misto dessas duas coisas ao mesmo tempo, por pessoas que eu sequer conhecia, que haviam morrido numa chacina noticiada numa revista de antes de 1981, ano em que nasci. Mas o que me impressionou não foi só isso. As tarjas pretas chamaram minha atenção.
Os corpos estavam nus, mas suas genitálias estavam protegidas pelas tarjas pretas.
Uma revista pode mostrar a brutalidade. Pode retratar a miséria em que aquelas pessoas viviam. Pode denunciar a injustiça, ou ainda, a justiça feita pelas mãos de civis. Pode revelar a insegurança que nos cerca há tanto tempo. Pode nos fazer sentir desprotegidos. Pode estampar o retrato de uma sociedade que não se preocupa com os marginalizados e que é reponsável pela existência da margem. Mas mostrar o sexo não era admissível! Como se se dissessem para aquelas pessoas: "foi mal tudo o que viveram vocês, nós nos desculpamos com essa tarja preta, com muito carinho e respeito"...
Que respeito? Somos uma sociedade que inverte valores como troca de roupas. Somos uma sociedade preconceituosa, que nos enche de vergonhas mas não deixa de cobrí-las.
Mustafá!
Bom findi!
Para relaxar:
"Não me deixe só
Tenho desejos maiores
Eu quero beijos intermináveis
Até que os olhos mudem de cor"
Não me deixe só - Vanessa Da Mata

quinta-feira, 25 de agosto de 2005

Tempo inimigo

Acho que estou ficando meio louco - ou louco e meio? - com tantos compromissos e com o a falta de tempo para cumpri-los. A vida é meio assim, quando a gente se dá conta, não dá mais conta...
Fica enfim aquela sensação de dever descumprido, ou comprido demais para ser possível! E de trocadilho em trocadilho a gente enche um post.... Mas por hoje é só isso mesmo... Quem sabe amanhã eu não volte a ter mais tempo e escrevo outra bobagem qualquer por aqui?

"Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio
Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio
Como zune um novo sedã
Tempo, tempo, tempo mano velho
Tempo, tempo, tempo mano velho
Vai, vai, vai, vai, vai, vai
Tempo amigo seja legal
Conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final"
(Sobre O Tempo-Pato Fu)

quarta-feira, 24 de agosto de 2005

O porquê de ser o que se é...

Embora eu faça parte de várias listas de discussões sobre Biblioteconomia*, não participo efetivamente de nenhuma delas. Acredito que as indações sejam extremamente tecnicistas (do tipo: Onde coloco o extintor de incêndio? Qual o tipo de extintor eu compro?). Mas participo de um grupo dos "Novatos da UFMG" (bibliotecários que ingressaram nessa universidade através do último concurso) que me faz rir um pouco e hoje - um ano após a minha formatura - levou-me a uma reflexão. Numa das mensagens alguém propôs que se discutisse a seguinte pergunta: "Alguém acredita que, a despeito do esteriótipo sobre a profissão, exista mesmo um certo tipo (psicológico?) que acompanha os colegas da categoria? Ou algumas carcterísticas existem, mas têm outra origem, externa ao bibliotecário?". Uma das respostas, a do colega Marcos, foi essa: "tudo começou aos meus cinco nos de idade, quando tentei escalar a estante de livros pra alcançar um brinquedo e quebrei tudo... Na agonia de meu delito ser descoberto, classifiquei, cataloguei e indexei os livros numa velocidade superior ao do carro-biblioteca (rindo da cara da Marília, bibliotecária do Carro Biblioteca da UFMG). Com isso "concruo" que tá no sangue!".
Eu sou bibliotecário sim e talvez minhas raízes estão na infância também. Talvez seja porque eu gostasse de livros desde criança e porque pedia pra minha Tia ler de novo e de novo a mesma estória até que eu não cansasse dela e ela me mandasse embora. Eu não precisei quebrar nenhuma estante, mas eu anotava numa folha os nomes das pessoas que emprestavam meus livros. Talvez seja porque eu goste de ficar no meio deles, mesmo os velhos e empoeirados, e sempre encontre algo de interessante num livro sem capa e cheio de "orelhas". Talvez porque eu ainda acredito que posso ser muito mais do que uma velha de óculos sentada atrás de uma mesa, obsurecida pelo seu mau humor. Talvez porque eu ainda acredite que a saúde, a econômia, a política e ética nesse país possam ser transformados através da leitura... Talvez porque nem sei porque e é por isso que eu procuro uma resposta nos livros... Talvez fosse diferente, mas é assim que tem sido...
Mustafá!

*O que é isso?- Uma visão um pouco simplista e reducionista, mas para um começo serve...

terça-feira, 23 de agosto de 2005

Se um aceno...


Eu só queria um aceno. Desses que se dão sempre no interior. Uma abaixada de cabeça, um breve sorriso, um olhadela rápida, um balançar de mãos, um aceno... Um pedido de desculpas...
Não entendo: ninguém se cumprimenta por não se conhecer? Ou ninguém se conhece por não se cumprimentar...
Se quando ando no centro da cidade ninguém me conhece, por quê esbarram em mim e nem me olham? Não há atenção melhor quanto pior é a indiferença...
Esbarraram em mim hoje na rua e eu quase perdi a paciência, que já não tinha. Sorri e olhei para o transeunte, que sequer me notou. Fosse eu uma folha de papel e em mim estaria a marca de sua pisada. Nada mais...
Que não me cumprimentem, tudo bem. Já me senti um doido quando vim para Belo Horizonte e, sem perceber, sorria para alguém nas calçadas e esse alguém me olhava com cara de ninguém. Mas esbarrarem em mim, derrubarem meus pertences e sequer acenarem, uma desculpa, um oi junto com um tchau... Não é possível!
Quando cheguei em BH em primeiro de agosto de 2000, parado na Praça da Assembléia, uma doida que por ali passava, olhando-me com as malas me disse:
- Está indo embora de Belo Horizonte? Boa viagem!
E sem esperar resposta ou cumprimento, acrescentou:
- Está chegando em Belo Horizonte? Bem-vindo!
Ela era educada. Dita louca, mas educada! Quem é verdadeiramente louco? Não sei...
Mustafá!
Ah! Deêm uma olhada nisso! Curioso...

segunda-feira, 22 de agosto de 2005

Em defesa de Jean Charles...


Talvez seja uma atitude tardia essa minha, defender o brasileiro morto "por engano" na Grã-Bretanha só agora. Talvez Jean, se ainda vivo estivesse, diria-me que é uma grande bobagem lutar com os vivos quando os mortos não terão a chance de voltar e reconstituir o perdido. Só o fato de Jean não ser um terrorista faz com que sua morte seja lembrada com pesar e como se ele tivesse sido um herói, no meio de uma multidão, disfarçado, mas digno de honras e datas comemorativas: o dia em que os certos pagaram pelos errados? Não! O dia em que as pessoas "normais" foram sacrificadas pela irresponsabilidade de seres desumanos.
A notícia de que a investigação do caso Jean Charles de Menezes pode levar uma a “grande disputa diplomática” entre o Brasil e a Grã-Bretanha, leva-me a perceber que erros existem sim, mas falta dignidade em assumí-los é vergonhável.Quinze mil libras não trazem a dignidade de nenhuma família.
O terrorismo existe. Isso é fato. Sair matando pessoas a esmo, como forma de abafar o fato de terroristas perigosos ainda não terem sido punidos (leia-se aqui Osama Bin Laden!) não é justificativa. A morte de um só ser-humano inocente não é desculpa pela tranquilidade da vida de 1000 outros.
Mustafá!

sexta-feira, 19 de agosto de 2005

Questão de postura

Longe de mim julgar alguém aqui no FdG! O que faço é dar minha humilde opinião... Mas acho que se comportar como presidente cairia bem para o Lula (em todos os sentidos). Comparem:Família Real Britânica

Família do Arraial Brasileiro

Recebi esse email essa semana. O que posso fazer além de rir?

Bom findi! Mustafá!

quinta-feira, 18 de agosto de 2005

"Eu acredito é na rapaziada"*


Meu objetivo não é competir com o Axé! Longe de mim competir com uma dança de nacionalidade brasileira que movimenta multidões... Seria impossível, mas não é o que pretendo. Só queria que as pessoas inserissem na política de “pão e circo” a cultura.

Dentro das atividades que desenvolvo nos meus trabalhos voluntários, estou ministrando um curso de “Auxiliar de bibliotecas”. Ao todo foram 8 inscritos, mas só três ficaram até o final. Não me importo com esse número, desde que essas 3 pessoas se tornem bons naquilo que escolheram fazer ou que pelo menos encarem uma biblioteca de uma maneira diferente do que viam antes.

Nesse final de semana, enquanto discutíamos sobre o prazer pela leitura, o hábito de ler e realizávamos nossas dinâmicas do curso uma música atrapalhou nossa conversa. Ela não parava e, quando fui fechar a janela, para que o som abafasse, percebi que havia, logo ali perto de onde estávamos uma aula de Axé. Não pude contar quantas pessoas se remexiam em cima da laje. Elas eram muitas. As crianças ao redor - aquelas mesmas que não têm paciência quando a gente começa a ler um livro ou propõe uma leitura e pulam de um lado para o outro como se fossem pulgas - estavam sentadas observando a “aula”.

Pensei nesse final de semana levar meus cds de axé para ver se o ibope da minha aula cresce. Pensei também em fazer aula de axé e me tornar professor de dança. Pensei em me juntar a eles no próximo fim de semana.

Pensei muito e por pensar muito resolvi que não! Eu ainda penso. Eu não posso parar de pensar. Eu não posso virar as costas para três pessoas que ainda querem pensar. Elas podem até gostar e ouvir axé em outras horas de seus dias, mas elas ainda pensam. Elas querem uma profissão. Elas querem ser úteis. Isso uma balançada em cima da laje não daria a elas...

Mustafá!
*Verso de "Vamos a luta!"

quarta-feira, 17 de agosto de 2005

Sobre o patinho feio...


Sempre me irritou essa estória de toda estória estar vinculada a um julgamento ou valor. Isso de numa simples narrativa tentar se dizer o que é bom ou ruim, propagar a bondade e veicular informações outras que não o prazer e a distração da leitura: leitura por leitura mesmo, com fim em si mesma.

Por quê o patinho feio tem que se tornar cisne para ser aceito na sociedade dos patos?
Se ele continuasse pato ele seria excluído só por ser feio?

Saio em defesa dos patos excluídos por uma sociedade que privilegia a beleza em detrimento do conteúdo. O pato é feio, mas tem muita cuca nessa estória! Ele não pode ser simplesmente um pato feio e ser feliz? Que o poeta diga que beleza é fundamental tudo bem, mas isso não quer dizer que é pressuposto para a felicidade! E se o pato se casar com uma pata feia? E a velha estória da tampa encontrar com a panela? Como fica?

Muitas indagações nesse mundo literário que institui a beleza como causa da felicidade (vide a estória da Cinderela e outras mais. Ou você acha que se ela fosse feia, mesmo o sapato servindo, ela se casaria com o príncipe?); que prega a punição contra a criatividade (vide Joãozinho e Maria que escolheram novos caminhos e foram pegos pela Bruxa); por falar nela, quem disse que Bruxa é sempre má e tem nariz pontiagudo com uma verruga na ponta? O mal pode parecer, muitas vezes, ébonito e mais inteligente, características muito mais tentadoras do que a falta de escrúpulos...

Mudando de assunto, de pato para ganso, ou melhor, de ganso para patos, a estória do Patinho feio só me faria sorrir ainda como criança se o pato descobrisse que para a feiúra tem remédio (botox, lipos etc.), para a falta de inteligência e para o preconceito não!

Prefiro ser o Patinho Feio a ser uma Dona Pata que tem vergonha do próprio filho...
Mustafá!

terça-feira, 16 de agosto de 2005

Eu, laboratório


E quando o ônibus atrasa?
Atrasa-se com ele o resto do meu dia. Atrasam-se com ele o meu humor, a minha paciência e tudo que se chama ansiedade se explode dentro de mim.
Ansiedade é um ratinho naquelas rodas, girando dentro da gente. É ele correndo atrás de uma comida que nunca virá dentro do meu estômago e eu me preciptando, agindo por impulso, metendo os pés pelas mãos. Acho que já nasci com esse rato dentro de mim.
Não tenho paciência com fila longa, com sala de espera de dentista, com atrasos alheios. Afobo-me com meus próprios atrasos, com a minha incapacidade de resolver meus próprios problemas, com excesso e com a falta de alguma coisa. Enfim... É rato girando dentro de mim durante o dia inteiro.
Assumo hoje aqui minha ansiedade diária. Só pode ser rato girando dentro de mim...
Mustafá!
OBS: Fui ver Rubem Alves ontem no Salão do Livro. 4 Filas!!! Muitos ratos girando dentro de mim... Mas valeu muito a pena...

domingo, 14 de agosto de 2005

Pai

Crianças têm medo. Eu tinha também.
Lembro-me como se fosse ainda hoje nós sentados - meus pais, meus irmãos e eu - em frente a minha casa, na beirada do portão sob a noite. Conversas jogadas na rua, com quem por ali passasse. Falava-se do tempo, que contribuía para estarmos ali sentados debaixo daquela lua comum de interior; falava-se da morte de alguém de longe e de perto; ria-se pouco a vontade; especulava-se pela vida alheia; estórias comuns das cidades pequenas. Mas se alguém perguntava por nós, os filhos, ali já de pijamas agarrados nas pernas dos pais, meu pai ia logo falando de um por um e quando chegava em mim, o mais novo, emendava: "esse eu peguei na enchorrada!", e me olhava com olhos de quem ri de mim e brinca comigo, misturando àquele desdém da minha entrada para a família o amor que tinha por mim.
Eu sofria muito por pensar que minhas origens estavam naquelas águas sujas que passam rápidas junto da calçada. Imaginava que tempestade havia me trazido. Calava-me e recusava-me perguntar mais sobre essa estória, com medo de meu pai resolver me contar, enfim, toda ela.
Mas se, de volta para dentro de casa, eu dormisse antes de ir para o meu quarto, meu pai me carregava até a cama e, acordando durante o trajeto, percebia seus braços de carinho e o amor que me faziam dormir mais tranquilo: aquele não poderia ser senão o meu pai. Entendia nesse momento o que ele queria dizer com aquele olhar de quem zomba e se diverte com a inocência do filho.
Era jeito de amar divertido. Era jeito de amar com poucas palavras como é o costume do meu pai. É o jeito de amar às vezes só corrijindo, para a gente ser boa gente quando crescesse...
Era o jeito de amar que ele sabe.É o jeito de amar que eu percebo.
Crianças têm medo, eu tenho também. Mas sua presença me encoraja.

Feliz dia dos pais...

Mustafá!

sábado, 13 de agosto de 2005

,: MOMENTOS COM PESSOA:.

Não sei quantas almas tenho
Fernando Pessoa
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

***

Por falar em literatura, acontece em BH o 6º Salão do Livro de Minas Gerais & Encontro de Literatura. Vale a pena visitar! Eu vou!!!

Mustafá!

Figura: "O restaurador de almas" de
Israel Zzepda.

sexta-feira, 12 de agosto de 2005

Duka e Jessica...


Dia de vários acontecimentos. Vamos por partes:
Acordamos todos hoje muito estudiosos. Mas era dia da Duka (Do Carmo, lembram?). Chegou pegou o seu "radinho", colocou-o na cintura e, andando de um lado para o outro, parecia um carro daqueles que consertam panela de pressão. Nossas leituras eram interrompidas momentanêamente, mas com muita frequência, por um xiado do Padre Marcelo Rossi. Seria cômico, se não tivesse sido trágico!
Mas tudo bem...
Fui ler meus blogs diários e no Rausch Means Drunk, vi que Jessica Alba "coçou os oxiúros em público", como disse a Carol. Hilário! Fui dar uma olhadela na "reportagem" e percebi que as coisas não foram bem assim. Na verdade, a estrela de Sin City não coçou nada, só tirou uma areiazinha incômoda. Quem nunca fez isso? Que culpa a moça tem de ser perseguida pelos fotógrafos até na hora de tirar areia da perseguida?
Conte comigo na sua defesa Jessica e se precisar de uma mão, tô muito aí pra você!
Bom findi,
Mustafá!
Foto: Dirce

quinta-feira, 11 de agosto de 2005

Santa Clara, clariai!


Hoje é o dia da televisão. Não sei se temos muito o que comemorar. No Brasil, notícia é sinônimo de mensalão; novela é sinônimo de "samba do crioulo doido", cafonice e tudo mais: América; programa de humor começa bem e depois começa a escraxar e fica uma chatice sem fim; de manhã Xuxa e Ana Maria Braga: ninguém merece mais... A tarde: Vale a Pena não ter o que transmitir: Laços de Família e de quebra um filminho D...
No Brasil, TV é sinônimo de Rede Globo, infelizmente...
Mustafá!
Para saber:
"Comemora-se o Dia da Televisão hoje, mesmo Dia de Santa Clara, porque ela é a padroeira da televisão. Clara se apresentou a uma pequena igreja e foi recebida por São Francisco. Depois, foi levada para um mosteiro beneditino e, mais tarde, para o mosteiro de São Damião. São Francisco morreu em 1226 e Clara levou o seu corpo para a clausura para que outras religiosas pudessem vê-lo. Ela viu projetadas numa parede as imagens do corpo dele e das honras a ele prestadas na cidade de Santa Maria dos Anjos. Ela é considerada a protetora da televisão por causa do privilégio de ter tido tais visões". (Guia dos curiosos)

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

Frequentadores da minha lixeira...



Tenho escrito poucos e-mails atualmente. Só respondo os e-mails escritos, por assim dizer, de próprio punho. Aliás, odeio mensagens encaminhadas. Não existem coisas que me irritam mais do que:

1- Power points com aqueles bebês que ficam dentro de baldes, frutas e similares;
2- Power points com mensagens que fazem dormir com a música “Imagine” ao fundo;
3- Power points em que as letras dos textos caem com o barulho de uma máquina de datilografia;
4- Power points que te fazem sentir a pior pessoa do mundo ou que o seu dia será o melhor de todos os tempos, quando ele, sem dúvida, será só mais um dia;
5- Mensagens atribuídas ao Dalai Lama, Chico Xavier e outros do gênero “faça chorar até o Fernandinho Beira-Mar”;
6- Mensagens do tipo? “envie essa mensagem para 98 amigos, caso contrário o Jô cairá sobre sua cabeça;
7- E-mails que pesam 5568 MB e lá vai pedrada!

Se seu e-mail não tiver vírus e nenhuma característica acima citada, ficarei muito feliz em recebê-lo.

No mais é isso. E se não fosse só isso, seria só isso mesmo!
Mustafá!

terça-feira, 9 de agosto de 2005

"Solidariedade a gente não se agradece, a gente se alegra"*


Há oito anos morreu Hebert José de Souza, o Betinho. Sei que oito anos não são tão comemoráveis quanto cinco ou dez, mas não se comemora a morte mesmo. Eu quero é homenagear a vida desse Cidadão (com c maiúsculo mesmo!).
Betinho atuou como sociólogo desde 1962 dentro da sociedade brasileira, seja com a o grupo da juventude católica, que desejava mudanças na postura da Igreja; seja no MEC, preocupado com a educação dos brasileiros; ou contra a ditadura, defendendo a democracia, o que lhe custou o exílio, mas que consagrou-o como lutador a favor da anistia. Soube como poucos atuar em diversas esferas da sociedade, deixando a sua marca de homem, e, sobretudo, de cidadão consciente de seus deveres, seus direitos e de sua capacidade de mobilizar os demais.
Morreu muito cedo, mas revelou-se, na fragilidade da hemofilia e, como consequência, da AIDS, um herói que lutou bravamente pela vida: não só pela própria.
Betinho é o brasileiro que eu gostaria de ser. É o brasileiro que eu posso seguir como exemplo. É o brasileiro que eu posso ser.
Mustafá!
Para saber mais: Perfil.
* Frase de Betinho.

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

Sobre muros e convivências...


Hoje só pra não dizer que eu não falei das flores vou colocar uma foto do ElBuesta na Alemanha, encostadinho no muro - ou parte dele - de Berlim...
Durante 28 anos (1961-1989) esse muro dividiu a cidade de Berlim em duas partes, sendo que cada uma dessas partes tinha seu regime político que, por sua vez, eram inimigos. Tal divisão foi provocada pela guerra fria e também como resposta ao fracasso do socialismo real em manter-se como um sistema vigente para a maioria da população.
Mas ElBuesta está aí pra provar que muro (real) pra dividir pessoas é coisa do passado. O ponto negro da história virou ponto turístico e quem vai a Alemanha tem que passar por ele e registrá-lo numa foto...
Há que se derrubar imensos muros que ainda separam ricos de pobres, negros de brancos, países desenvolvidos de subdesenvolvidos e por aí vai... É preciso entender que muro não separa ninguém, ignorância sim...
Mustafá!
Para saber mais: História - O muro de Berlim

sábado, 6 de agosto de 2005

Figurantes?


Taí uma foto para nós provarmos que fomos no show do Los Hermanos, hehehe. Conheço o pessoal da foto também (Renatinha e Rafaela, "gentes finíssimas"), mas destaque (entre aspas, obviamente) para mim atrás (de perfil, que o diga meu nariz...) e meu primo, Arone.

.:MOMENTOS COM PESSOA:.


II - O Meu Olhar
(Alberto Caeiro)


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

sexta-feira, 5 de agosto de 2005

"De volta pro meu desaconchego..."


Voltei, sinto pois é pra ficar...
Bons tempos esses passados na Vila.
Tempo usado pra matar saudade que estava escondida no fundo de alguma gaveta em mim. Tempo pra fazer bala de coco, dar tudo errado e queimar a mão e mesmo assim ter a sensação de que valeu a pena. Tempo pra dormir entre o pai e a mãe e acordar sentindo que o carinho é, na maioria das vezes, melhor que o nascer do sol. Tempo de levar sobrinha no parque e descobrir que sorrir é muito simples... Tempo de comer arroz, feijão, bife e batata-frita e achar que não há cardápio melhor do que a comida da casa da gente. Tempo de conversas estranhas, mas risos fartos. Tempo de ir ao rodeio e ainda por cima se divertir, o que vale é estar com os amigos e com quem a gente gosta de verdade...
Tempo pra se perceber que o tempo passa e por isso é preciso aproveitar ao máximo...
Mustafás de volta!!!!
Obs.: tempos de muitas voltanças: ElBuesta voltou! Trouxe presentes. Uma coisa micro para o computador que consegue guardar todos os meus arquivos, todos, todos, todos!!! Adeus às perdas de arquivos! Era dos backups fartos!
*Paráfrase da música, já muito conhecida...